PAULA KNUDSEN É ROTEIRISTA. 

JÁ FOI JORNALISTA.

PENSA EM UM DIA VIRAR VENTRILOQUISTA.

mora em são paulo.

Setembro é o mês mais amarelo

Setembro é o mês mais amarelo

Se você olhar ali em cima eu chamei esse blog de roteiros e crises.

Eventualmente ia ter post sobre crise. Prometo que serão raros. Afinal, já tem mais textão no facebook do que o Universo precisa. Tá em expansão perpétua.
O Universo e o textão.

Noentantocontudo, chegamos à metade do #setembroamarelo. E setembro é o mês em que a gente fala de Prevenção ao Suicídio e eu me pergunto: quem foi que escolheu AMARELO e o quê que eu fiz contra essa pessoa em uma vida passada?

Mas - que nem meu dente que morreu de cotovelada e ficou cinza - a vida é um decorador que não tá nem aí pro meu look. Em setembro eu sou uma pessoa que usa fitinha amarela.

Bora começar com a leveza de um elefante fantasiado de hipopótamo: meu maior medo na vida é morrer de mim.

Estatisticamente meu medo é plausível. De 30 a 70% dos suicídios envolvem pessoas diagnosticadas com depressão clínica. Não se sabe dizer o número de pessoas que chegaram lá por falta de diagnóstico. Há quem estime que até 90% dos suicídios estão ligados a doenças envolvendo a química cerebral.  

Eu escolho dizer que essas pessoas morreram da doença. A doença da qual a sociedade ainda faz piada. Doenças difíceis de tratar pois o cérebro é nosso órgão mais complexo e o povo ainda tá é tentando clonar orelha (eu precisava mostrar isso pra alguém).

Meu nome é Paula, e, além de ser o tipo de pessoa que não dá descarga quando faz xixi por motivos ecológicos e de preguiça, eu ando por aí com uma combinação dum negócio chamado Transtorno de Ansiedade Generalizada -  TAG - e Depressão Clínica Severa, que ninguém chama de DCS.

O rolê clássico na minha vida é que primeiro o cérebro liga em modo TAG sem dar aviso prévio. Um errinho químico diz pro meu cérebro que um leão está prestes a me jantar. Eu começo a suar frio e sentir tudo formigar ali no meu sofá. Dependendo da boa vontade do meu cérebro rola inflamação nas juntas e febre ao mesmo tempo.

A situação continua igual no parque vendo se esse negócio de jardim japonês funciona. E na yoga que você vai me indicar nos comments. Fica igual se eu tô pingando o floral que alguém disse pra tomar ao me olhar feio assinando a receita de tarja preta na farmácia.

Nessas fases eu planejo ir no zoológico enfiar a cabeça na boca de um leão pra ver se passa.  

Aí eu lembro que eu sou contra zoológicos.

Mas.... não é só isso!

Pelo preço de mais umas semanas ou meses assim, uma hora o disjuntor do cérebro cai exausto de ficar em alerta. E no escuro só sobra a lanterna da Depressão Clínica Severa.

Ela é vendida nos melhores lixões de Chernobyl com o filtro de 'nada importa' e 'eu sou um uso desnecessário de carbono’.  

A duração da pilha dessa lanterna é uma coisa tão eficiente que só pode ter sido desenvolvida pelos alemães. Afinal, o Indiana Jones me ensinou que é tudo culpa deles.

Se, por algum mistério da vida, você chegou nesse ponto do texto e não acredita que doença psiquiátrica é 'de verdade' que nem cancro e gangrena - eu queria muito colocar essas palavras em algum texto, vai nesse - eu não vim ao mundo pra ser seu Google.

“Ciência+cérebro+psiquiatria” é uma digitação que eu te recomendo.

Se você não acredita em ciência ponto final eu desisto de você. Sério, facebook, textão, vai lá, o mundo é seu, abraça a vida amigo. Tem gente vivendo no centro da terra. Há um código secreto no Cinqüenta Tons de Cinza. Pôneis são sinais do Apocalipse.

Te desejo uma ótima vida mas, nossas jornadas se separam por aqui.

Se o leitor que chegou aqui acredita que se eu pensasse positivo tomando homeopatia e fazendo invertida tudo passava mas, mesmo assim, continuou uma coisa eu te garanto: você ama alguém com uma doença psiquiátrica.

E se você não sabe quem é, torça para um dia essa pessoax te contar. Aliás, esse texto não ta aqui pra você. Tá aqui pra essa pessoax.

Prolixei até aqui pra dizer uma coisa: eu acho que há vantagens em sair do armário psiquiátrico.

Faz dois anos que eu saí do armário pros meus amigos. Um ano que passou a ser algo que eu abordo abertamente na minha vida profissional.

Essa é a primeira vez que eu escrevo sobre isso em público. Para ser sincera - se as piadas de pavê a cada meio parágrafo ainda não me entregaram - escrever esse texto me dá medo.

Tenho medo de alguém ler isso e resolver não me contratar. 

Ou toda vez que eu não estiver pulando de felicidade feito um coelho que tomou LSD numa rave um amigo ter certeza que eu vou pular da janela ainda hoje.

E olha que eu tento explicar: uma das vantagens de morar no 5o andar é que me jogar da janela do quinto andar é super Legião Urbana. E até meu cérebro mais depressivo tem mais dignidade que isso.

Tenho pavor de alguém usar isso quando eu tiver uma reação humana a uma situação desrespeitosa e dizer que não sou eu e sim minhas doenças falando.  Enfim, me chamar de louca.

Por fim, tenho um tiquinho de medo de conhecer alguém que não diz coisas de serial killer ou de feministo num desses aplicativos de dating. A pessoa ler esse texto e não querer esse tipo de problema na vida dela. 

Desse último caso não tenho muito medo não. Deve ter muito serial killer em São Paulo, só pode ser. Menos que feministo mas, ainda é serial killer pacas. E morrer de serial killer é algo que eu prefiro evitar.

O pior é que sei que todos esses medos são realistas. Todas - deixa eu repetir: TODAS - essas coisas já aconteceram na minha vida. Mesmo. De verdade.

Mas, eu estou escrevendo aqui porque se você tem um leão no seu cérebro. Se você já teve mais medo das suas mãos do que das do Freddy Krueger. Se você achou outras metáforas pra tudo isso mas, eu meio que faço sentido.

Eu só quero te dizer que eu faço sentido. E você também. E sair do armário me ensinou duas coisas.

A primeira foi entender que eu tenho uma doença e não que eu errei na hora de existir. E isso me ajudou.

Eu faço de tudo pra não sentar em cima dos meus óculos – beleza, ainda rola – e vou no oftalmologista porque eu curto poder ler placa e saber que árvore tem folha. Meus olhos precisam de ajuda médica, afinal, eu tenho nove graus e meio de miopia. E isso é um fato. Ponto final.

Eu resolvi me entender com a minha química cerebral que nem com a minha miopia. Aliás, tanto a miopia quanto a depressão são coisas de família. Isso e uma aversão patológica a abraços longos.

Eu lentamente aprendi a ir no psiquiatra que nem eu vou no oftalmo. Ir na farmácia e assinar aquele monte de via da receita médica que nem ir na Fotótica. Experimento tudo quanto é tipo de exercício pra ver qual me ajuda a ter mais serotonina na cabeça que nem ir na fisioterapia pro meu tornozelo. Aliás, nesse terceiro eu preciso tomar mais vergonha na cara, na fisio e no exercício. Ordens médicas.

Eu passei a olhar pra um começo de crise de ansiedade como um começo de gripe. É hora de desacelerar pra evitar piorar.

Se piorar. Que nem a gripe que vira pneumonia. Eu peço ajuda.

E é aí que poder dizer “oi eu tenho depressão” ou no meu caso “oi eu tenho depressão e ansiedade” me ajuda.

É o único jeito de conseguir a outra parte da ajuda que eu preciso: a de humanos. Da minha psicóloga, amigos, família e até um taxista que já me dirigiu em meio a uma crise de pânico e nem gostava do Maluf.

É bem mais fácil pedir mais ajuda quando as pessoas que te amam estão pelo menos avisadas do rolê do que ter que explicar TUDO (link para vídeo com tudo) na pior hora.

Uma coisa. Não me leve à mal, elas não vão entender. Mas, pelo menos com o tempo elas vão entender que não entendem. Talvez você tenha um amigx que vai correr atrás de estudar a doença pra te entender melhor. Talvez você ache um vídeo que te ajuda a explicar.

Talvez um dia eu consiga fazer uma comédia pop sobre depressão. Todo mundo vai entender melhor essa coisa super 'diversão para a família toda' que é depressão clínica. 

A Globo Filmes vai exibir o filme no Brasil todo. Vai fazer mais sucesso que Minha Mãe é uma Peça 2 (menos que o 1, sejamos razoáveis). E aí o estigma vai acabar. O mundo vai se abraçar.

Mas, não vai me abraçar, por favor. Já avisei que não é minha praia.

Enquanto eu não resolvo o estigma secular da saúde psiquiátrica com um roteiro só... 

Conte prum amigo. Para um parente. Para um grupo de apoio.

Se não tiver forças para nenhum deles aqui tem uma linha de ajuda e até um chat de ajuda. Um chat. Dá até pra digitar encolhido paralisado debaixo do cobertor. La garantia soy yo.

Experimentei todos. Chat do CVV com o mesmo pijama há uma semana? Já fiz. Ir no grupo de apoio com o mesmo pijama debaixo do casaco? Também. Se alguém te perguntar porque você apareceu de pijama bota a culpa ni mim. Se só dá pra sair de pijama, vai de pijama. Mas, vai.

Cada recurso desses me ajudou em um momento diferente. As pessoas gente fina que estão lá querem que você use. Use.

Eu acabei de escrever como fazer amigos, ser sexy e ficar ryca? Super não.

Tô te dizendo pra ir no banco e gritar: ‘chefeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee eu tenho depressão’.
Cara... não sei. O estigma é real. Super real.

Eu aqui Paula, tô torcendo pro povo acreditar naquele mito de que gente depressiva é criativa e não me estigmatizar. Mas, se me estigmatizarem, pelo menos eu coloquei o pé na rua aqui pra dizer pra quem se identifica comigo que eu tô aqui.

Eu estudei três anos em um mestrado super puxado morando sozinha fora do pais e cuidando da minha depressão. Eu já fui entrevistar gente no meio da Amazônia cuidando da minha depressão.

Mano, eu e minha caixinha de Zoloft atravessamos a Patagônia. Recentemente, o Zoloft parou de funcionar do nada e aí foi um rolê de lanterna Chernobyl e coisa e tal. Mas, eu pedi ajuda e agora eu e meu Prozac estamos aprendendo a jogar roller derby. 

 E eu, você, nós pacientes psiquiátricos, temos uma vida incrível pela frente, plantando tomate, instalando janela, jogando pingue-pongue profissionalmente. O esquema que rolar, finaceiramente e pra sua felicidade. Yes, we can.

Mas, a gente precisa se cuidar e aceitar que a gente precisa se cuidar. Se rolar uma empatia do povo que faz piada de 'tarja preta' e 'essa mina é louca', legal. Enquanto não rola, a gente tá vivo. A gente tem uma vida pra viver e recursos para manter a gente vivo.

Eu acredito que dá pra sair de 01 dos nossos mil armários.  Um só. 

E pra você, que chegou até aqui e a química do seu cérebro é melhor que a visão do Superman.  

Minha dica: a melhor resposta para alguém que te diz “eu tenho x do mundo da psiquiatria e estou bem ruim no momento” é fazer uma pergunta simples.

“Posso sentar aqui?” é super válida. Mas, por favor, não sente no colo da pessoa e comece a chorar. Já rolou na minha vida. Não ajudou. 

Chama bom senso galera. Tô sabendo que tá fora de moda mas, torço pra voltar.

“Posso te trazer um copo d’água?” é prática.

“Conte-me mais sobre isso” é meio formal mas, se só tiver isso, vai isso.

A pergunta só quer dizer: eu tô aqui. “Eu tô aqui” é um ótimo lugar pra começar.

Eu digo pra fazer uma pergunta porque eu vou te garantir: você não tem uma resposta. O melhor psiquiatra do mundo ainda não tem uma resposta.  E tudo bem. Você escolheu estar lá. Isso importa.

Repito: concentra na perguntinha simples. Num inventa de ‘animar’. Peloamordopovoquemoranocentrodaterra.

Isso sou eu. Fora do armário, num lugar que dá pra me achar no google. Eu e o povo que mora no centro da terra.
Eles têm mais followers.

Estou aqui porque contei que estava aqui com doença psiquiátrica e tudo. Estou aqui porque tive ajuda. Eu escolho estar aqui.

Se você chegou até o final desse texto gigante, estamos aqui juntos.

UTILIDADE PÚBLICA (lê só mais um pouquinho, vai)

Transtornos afetivos podem parecer problema de 'classe média sofre'. As estatísticas mostram que não. Eles estão distribuídos pela população independente de classe social, cor. E, apesar de alguns dados que apontam um número maior de mulheres diagnosticadas, outros estudos indicam que um grande percentual de homens não procura ajuda pelo estigma que criamos em cima de uma masculinidade mitologicamente auto-suficiente.

Hoje, eu fiz uma doação ao CVV e me inscrevi para uma doação mensal para a Abrata. Eu sei o quanto a minha saúde pesa na minha conta bancária. Convido quem passar por aqui a crowdsourcear um pouquinho do apoio de quem não tem a sorte de ter todos esses recursos à mão. 

http://www.abrata.org.br/new/contribua.aspx

https://www.cvv.org.br/colabore/

 

 

 

 

 

 

 

Re-escrita de Longa-Metragem

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